Olhar de Sabiá

PERFIL

Do Planalto Central ao calçadão de Curitiba: a arte musical que fez o palhaço parar para admirar

Brasília também tem suas belezas, mas, para Chico, as feirinhas e a arte de rua fazem Curitiba se destacar da capital federal

Emilly Kauana Alves

Fotografia de um homem de cabelos longos cacheados, barba volumosa e óculos de grau. Ele veste uma jaqueta preta sobre uma camiseta estampada e segura um banjo com as duas mãos, olhando levemente para o alto. O fundo é composto por copas de árvores e iluminação natural filtrada pelas folhas.

Fotografia: Emilly Kauana Alves

Sábado, 25 de julho. A Praça Osório está lotada. Crianças brincando, sabiás cantando, pessoas andando e vendedores circulando. E o que há de tão especial nesse cenário? Consegue adivinhar?

A correria do dia a dia muitas vezes nos faz esquecer da história de cada um que passa por nós, mas nesse dia em específico, quem foi protagonista dessa narrativa foi Chico, um artista tímido, mas que com a ajuda do seu banjo, rapidamente fez idosos e crianças pararem para olhar sua arte.

Pouco tempo depois, um senhor apareceu olhando de longe, mas a inquisação também o fez chegar cada vez mais perto. De passo em passo, ele caminha com o celular apontado para Chico, cuidadosamente tentando enquadrar o artista. O idoso olhou, e disse estar enviando o vídeo para seus familiares de Roraima. Ficou por um tempinho e seguiu em direção a Alameda Cabral, pegar o seu ônibus. 

Essas ações demonstram algo em comum — o ato de querer ouvir, olhar, apreciar a música, capaz de transmitir sentimentos muitas vezes escondidos.

Aos seus 27 anos, Francisco — ou Chico, como prefere ser chamado — descreve como a arte foi capaz de moldar sua juventude e moldar sua personalidade. A música sempre foi, antes de tudo, o seu refúgio contra o silêncio.

O vazio que não se mensura
A solidão de Chico nasceu de um cenário comum a tantas infâncias brasileiras: a ausência. Com apenas três anos, ele viu o lar se transformar com a separação dos pais. Sua mãe assumiu o papel solitário de conduzir a vida do menino, tendo como moldura uma Brasília de horizontes abertos, concreto vasto e dias que pareciam não ter fim.

Diante de uma rotina em que a mãe precisava trabalhar o dia inteiro, o vazio do apartamento não virou abandono, mas espaço de criação: aquele silêncio foi o primeiro palco onde o menino aprendeu a inventar o próprio mundo.

Fora de casa, ele descia para deslizar de patins pelo asfalto quente, mas a verdadeira gravidade de seus dias estava dentro de quatro paredes. “No geral, eu ficava em casa e tocava música o dia todo, e era isso”.

Foto: Emilly Kauana Alves

O primeiro instrumento foi o teclado, aos oito anos, descoberto quase por acidente no Escola Parque, um projeto de período integral da rede pública de ensino de Brasília. Dali, ele ingressou cedo na Escola de Música de Brasília (EMB), onde aprendeu as primeiras noções de teoria musical antes de a vida mudar de rumo novamente e afastá-lo dos instrumentos por um longo tempo. 

O ritmo que lhe permitiu sonhar

A quietude da infância quebrou-se na adolescência, quando o rock pesado entrou no quarto de Chico como um estrondo de distorção e mistério. O gatilho para isso foi o vinil Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath. Ao ouvir o álbum, Chico sentiu um abalo no próprio eixo de seu mundo interior: “Cara, o que é isso? Que coisa de fora do mundo é essa? Eu preciso disso na minha vida”.

Munido de um violão ganho aos quatorze anos e de uma atitude “meio emo”, ele decidiu dominar as cordas para tocar rock. Juntou-se a quatro amigos e formou uma banda de garagem cujo único objetivo era o próprio prazer de tocar, sem grandes plateias ou pretensões comerciais.

Do rock para a música celta

Se o rock pesado deu a Chico a energia que tanto almejava, a música tradicional irlandesa lhe trouxe um ritmo diferente, rápido e melancólico ao mesmo tempo. Essa descoberta aconteceu ainda na adolescência, quando ele conheceu a banda americana Flogging Molly, que misturava a energia do punk com o som tradicional de flautas e banjos celtas. A paixão foi imediata: “Cara, eu quero tocar isso!”, pensou ele na época. Aos 17 anos, na UnB, ele encontrou Thiago e Fidel, dois amigos que compartilhavam do mesmo gosto musical, e juntos, montaram a banda Yew. Eles começaram a tocar em festivais medievais e descobriram que, apesar de pequeno, existia um circuito caloroso de música irlandesa em Brasília.

Os instrumentos que Chico hoje carrega consigo são frutos de acasos e de amizades. O banjo, que substituiu a guitarra de sua juventude, entrou em sua vida por conta de uma força que um amigo precisava.

Chico aprendeu a domar as cinco cordas sozinho, assistindo a vídeos no YouTube e tirando as músicas de ouvido. Já a tin whistle, a pequena flautinha de metal irlandesa, foi comprada por cinquenta reais de Fidel, flautista original da banda, que precisou deixar a estrada para cursar Medicina.

Entre subidas e barrancos 

Embora Chico encare a calçada da Praça Osório como um ensaio aberto ao ar livre para mostrar seu talento, o som do seu banjo já alcançou palcos de muito prestígio. Um dia, um músico o convidou para formar um trio de última hora com outro integrante para uma apresentação especial. O ensaio funcionou tão bem que Chico acabou se apresentando na Embaixada da Irlanda, em Brasília, em três ocasiões diferentes. Nas duas primeiras apresentações, o clima foi tão descontraído que a própria embaixatriz da época, Susan, esposa do embaixador Seán Hoy, subiu ao palco para cantar com eles. 

Essa vida de músico, porém, sempre correu em paralelo com uma rotina exaustiva de trabalho. Ele ingressou na faculdade de Filosofia na UnB aos 17 anos, mas a necessidade de pagar o aluguel dando aulas de inglês o fez abandonar o curso cedo. Anos depois, ele tentou o curso de Letras-Inglês, mas a jornada dupla de estudar e lecionar em franquias de idiomas o levou a um esgotamento mental severo.

Foto: Emilly Kauana Alves

A música parecia ser a saída financeira quando a banda passou a fazer shows mensais regulares, mas em março de 2020, a pandemia chegou e cancelou, de uma vez só, as oito apresentações que ele tinha agendadas para o feriado de St. Patrick's. Forçado a dar aulas online de casa durante o isolamento, o desgaste com o ensino chegou ao limite. Em 2022, ele tomou uma decisão drástica: “Cara, eu não quero dar aula nunca mais na vida”. Fez um novo vestibular para Tradução na UnB, aproveitando boa parte do seu histórico, e realizou estágios na Defensoria Pública da União e no Ministério Público Federal. A tradução freelancer finalmente lhe trouxe a paz que precisava: a liberdade de entregar seus trabalhos dentro de prazos, permitindo que sua rotina se encaixasse com as apresentações musicais.

O horizonte plano de Brasília e o calçadão vibrante de Curitiba

Se Brasília é o império das linhas retas, do horizonte largo que se estende até onde os olhos cansam, Curitiba é uma experiência de clausura e floresta urbana. Para quem cresceu sob o céu monumental do Planalto Central, a capital paranaense impõe um novo arranjo físico e visual. “As duas cidades são muito diferentes. Mesmo”, observa Chico, tateando a mudança com o olhar de quem ainda tenta decifrar a paisagem urbana.

Há cerca de 8 meses atrás, quando vimos Chico pela primeira vez tocando na Praça Osório, ele tentava desmistificar como pode duas capitais ser tão diferentes. Volte e meia ele vivencia o silêncio monumental de Brasília pelo calçadão vibrante de Curitiba, onde caminha com os olhos erguidos para decifrar os grafites gigantescos e assinados que cobrem as empenas cegas dos prédios antigos. 

Chico em janeiro de 2026, na Praça Osório, quando nossa equipe o viu pela primeira vez.Foto: Emilly Kauana Alves
Registro feito em agosto de 2026, em nosso segundo encontro.Foto: Emilly Kauana Alves

Neste novo cenário, onde o concreto cinzento divide espaço com o movimento pulsante dos pedestres, ele encontra a expressividade que o Planalto Central costuma sufocar: o vaivém das feirinhas tradicionais e uma calçada que respira arte, povoada por músicos, palhaços e estátuas vivas que permeiam toda a cidade.

Certamente, é esta pluralidade — que muitos tentam apagar —  que destaca Curitiba de outras capitais. A arte faz parte da cidade mesmo quando não se há intenção de parar e prestigiar o movimento artístico. Ela é inerente.

Foto: Emilly Kauana Alves

“Artistas prestigiam artistas”

Chico ainda mora em Brasília e está terminando a faculdade, mas veio passar férias em Curitiba para ver a namorada. Quando resolveu levar seu banjo para tocar no calçadão da cidade, nascia ali uma dessas coincidências difíceis de explicar. 

Anos atrás, quando a grana apertou e ele precisou trancar o curso de Filosofia na UnB pela primeira vez, Chico teve que se virar para pagar as contas. Durante a semana ele dava aulas de inglês; nos sábados e domingos, mudava completamente de papel. 

Talvez por ter essa história na bagagem, o momento que mais marcou Chico em suas tardes tocando como visitante no centro de Curitiba envolveu justamente um palhaço.

Quem decide tocar na rua sabe que a maioria das pessoas passa com pressa, olhando para o celular ou pensando nos próprios problemas. O músico muitas vezes vira quase um cenário invisível na calçada.

Mas, de repente, o fluxo da rua mudou. Um homem vestido de palhaço, que também estava trabalhando no centro e carregava uma câmera, parou bem na frente dele. No começo, parecia só mais uma gravação rápida do movimento da rua. Só que, em vez de seguir caminho, aquele palhaço decidiu fazer uma pausa.

Naquele momento, duas pessoas que costumam trabalhar para fazer os outros sorrirem ou pararem a correria se encontraram no meio do calçadão. O palhaço desligou a pressa do trabalho, sentou na calçada e virou a plateia ao som do banjo de Chico. Para o músico de Brasília, que um dia já teve que se pintar e animar festas para pagar as contas, ver aquele palhaço sentado no chão de Curitiba só para ouvi-lo foi um sinal bonito de que a sua música tinha conseguido, por alguns minutos, fazer a cidade parar e prestar atenção.

Caminhos que se entrelaçam

Por trás do jovem de 27 anos que faz idosos e crianças pararem para ouvi-lo em Curitiba, existe um homem que aprecia o silêncio. Quando a música para e as pessoas não estão olhando, Chico é uma alma profundamente reservada. 

Foi o amor, no entanto, que traçou sua rota definitiva em direção ao Sul. A namorada dele, que também é sua melhor amiga de longa data, já morava em Curitiba. Em uma viagem de férias, no exato primeiro dia de 2026, a amizade transformou-se em namoro. Atualmente, Chico divide seus dias entre o TCC na faculdade e as visitas apaixonadas à capital paranaense. Seus planos para o ano que vem já estão traçados: assim que colar grau, ele subirá a serra para morar definitivamente no Sul e se casar com o amor de sua vida.

De passo em passo na capital chuvosa, Chico vai colecionando histórias que leva para a vida, Como no dia em que conheceu Flávio, um senhor de cabelos brancos que tocava na rua e falava sobre bicicletas. Eles conversaram por horas, tocaram juntos e, dias depois, Chico descobriu que aquele simpático velhinho que lhe presenteara com sementes e um livrinho de receitas era uma figura famosa na imprensa local. São esses pequenos encontros — entre músicos, palhaços e ilustres visitantes de Roraima — que mostram que, para Chico, a calçada de Curitiba é o lugar onde a vida finalmente acontece sem roteiro.

Retrato de Emilly Kauana Alves

Equipe Olhar de Sabiá

Emilly Kauana Alves

Emilly, 20 anos. Redatora, fotógrafa e pesquisadora apaixonada pelo universo da cultura, do esporte e do cotidiano. Acredita que a sensibilidade e a curiosidade são essenciais para transformar a rotina em notícias e registros marcantes, com uma apuração jornalística ética e precisa.

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