Olhar de Sabiá

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A capoeira como um jogo da vida

Pablo Ryan

Imagem de exemplo para a matéria "O regionalismo cabe na literatura curitibana de hoje?"

Fotografia: Pablo Ryan

“O nêgo fugia da senzala, o senhor já mandava buscar, então ele se escondia e batia no homem que ia pegar. Quem é esse homem? Capitão do mato. Quem é esse homem? Capitão do mato.” Assim canta Gustavo Fernandes Laiter, de 42 anos, mais conhecido como Bisqui, que como muitos capoeiristas expressa a cultura como forma de resistência e luta contra opressão. 

Mas, afinal, quem é esse capitão do mato? No regime da escravidão, era uma figura associada à desumanização e à brutalidade. Era representada por homens que tinham a cruel função de realizar patrulhas em áreas rurais, e prender escravos que lutavam contra a liberdade, utilizando métodos totalmente violentos de punição. 

Em troca da captura dos fugitivos, os senhores ofereciam recompensas ou uma posição de mais segurança dentro do sistema opressivo. Por sua vez, os escravos precisavam utilizar a agilidade para fugir e se defender, refletindo os movimentos da ginga de capoieira.

Bisqui, como treinel, vê nas gingas não apenas movimentos, mas fundamentos que carregam profundos significados da luta pela sobrevivência dos escravos. “O capitão do mato e a escravidão não existem mais daquela forma, mas ainda estão presentes em diferentes correntes de opressão.”

Sentado em uma cadeira, em frente aos seus berimbaus na parede, ele começa a emergir em suas memórias e reflexões sobre a capoeira. Ao lado, há uma escrivaninha com plantas muito bem cuidadas. As plantas recebem uma bela luz de uma janela que vejo de frente, na mesma direção em que vejo Bisqui. A mesma luz que as plantas se alimentam, também cria um contraluz interessante no rosto de Bisqui.

Na sala do apartamento percebo outros instrumentos além do berimbau, também haviam atabaques no chão. Esses instrumentos normalmente são utilizados em rituais religiosos afro-brasileiros e danças de origem africana.  

Autodeclarado mestiço, com dreads e tatuagens que simbolizam uma eterna conexão com a ancestralidade e espiritualidade, Gustavo Bisqui muitas vezes é questionado pela profissão e até mesmo por sua presença.

A prova viva do preconceito descarado é mais evidente ainda quando Bisqui é contratado por um serviço público, e é discriminado. “Disseram que não entendiam o porquê de eu estar lá, e que a capoeira não ajudaria no futuro das crianças.” Chegava com seus instrumentos, pronto para levar ensinamentos, mas frequentemente saía questionado e substituído por outros professores.

As autoridades, por outro lado, julgam pela aparência e o enquadram em praça pública. ”Levei uma geral, mas pelo menos respeitaram quando falei sobre minha profissão, talvez as coisas estejam mudando.”, diz Bisqui.

Nascido e criado em Curitiba, ele começou sua importante história na capoeira em 1989 na academia do mestre Piton, no bairro curitibano do Boqueirão. Desde lá, ele percorreu várias escolas que foram essenciais para moldar sua carreira de mais de 30 anos como um defensor apaixonado da capoeira e da cultura popular.

Enquanto um gato curioso atravessa a sala miando docemente, ele conta que em 2003, sua vida tomou novos trilhos depois de conhecer a Associação de Capoeira Angola Dobrada (ACAD), onde recebeu sua formação como treinel em 2010 das mãos do mestre Rogério, fundador da associação. 

Para Bisqui, a capoeira tem grande importância na construção de amizades. Cada ginga, cada canto, se torna um laço que se transformam em histórias.

Caminhada que fez criar laços com Aurélio Alves, também professor de capoeira, que conhece Bisqui desde quando tinha o pseudônimo de Senzala. O professor guarda memórias de um momento significativo que ocorreu, através de seu irmão e primeiro discípulo, conhecido como Zumbi. 

Lembranças de uma roda de capoeira nas ruínas de um largo, onde a ACAD estava presente, permitindo seu reencontro com Bisqui. O jogo entre os dois, acompanhado por uma bateria envolvente, reativou sua conexão com a cultura. Um ano depois, fundou o Grupo de Resistência Interacionista e Orientação à Capoeira, o Griôt Capoeira, inspirado na vertente do Mestre Pastinha, maior propagador da modalidade tradicional no Brasil.

Aurélio Alves avalia que as qualidades de Bisqui contribuíram muito para seu crescimento como capoeirista. “Aprendo e certamente aprenderei com este camará, observando seu jogo, seu silêncio enigmático e seu axé.” Aprendizado que segundo Aurélio é mais percebido nos jogos de capoeira, que quando eles têm oportunidade de jogar juntos, ecoam os timbres dos berimbaus e sua simbiose.

Dentro da capoieira existem diferentes modalidades, sendo as mais conhecidas a capoeira angola e a capoeira regional. A capoeira angola é a forma mais tradicional, que remete à história africana dos escravizados no Brasil. Mestres como Pastinha, que aprendeu com um africano, exemplificam essa conexão histórica. Por outro lado, a capoeira regional, criada por Mestre Bimba, também tem suas raízes na tradição africana, e apresenta uma abordagem mais sistematizada e atlética.

O antes detentor do pseudônimo Senzala, acredita que classificar a capoeira como esporte corre um sério risco. Apesar de ser considerada uma arte marcial, pode se perder a riqueza cultural que é acompanhada de músicas, cantigas e rituais.

É uma riqueza cultural que faz seu trabalho se estender por diversas expressões: samba de roda, capoeira e tambor de crioula. Ele menciona sua longa trajetória no grupo de Ângelo Passos, coreiros de São Benedito há mais de 20 anos. "É a essa área afro-brasileira aqui em Curitiba que tenho me dedicado." Além de ser iniciado em orixá no Candomblé, onde ocupa o cargo de Pojo Ogã e Sacerdote.

Gustavo Bisqui diz que se for ver pela perspectiva do esporte, a capoeira seria um dos esportes mais completos do mundo. O condicionamento físico exigido envolve praticamente todos os grupos musculares, assim como a natação, que é frequentemente considerada o esporte mais completo.

Mas, ao contrário de muitos esportes que buscam a força física para vencer, na capoeira o foco está na malícia e estratégia. Por exemplo, não existe o conceito de nocaute; a ideia é derrubar o oponente com uma rasteira, sempre de maneira elegante, reforçada pelo ritmo da musicalidade que permeia a prática.

Malícia e estratégia que podem ser trocadas por cuidado e tranquilidade, que vão além da prática, é como se a capoeira interligasse tudo em Bisqui. No seu apartamento, por exemplo, há uma sensação de cuidado, visível nas suas plantas e nos instrumentos que enfeitam sua sala. A tranquilidade, por outro lado, se reflete claramente em seu jeito de ser e em sua forma de falar.

Na medida em que toma seu café, dá pra ouvir os sons da vizinhança e dos carros na avenida próxima ao seu apartamento, o gato mia mais uma vez, enquanto Bisqui explica que na capoeira não há regras, mas sim fundamentos. 

Calmamente, gesticulando com as mãos, analisa que a roda de capoeira funciona como um relógio. No sentido anti-horário, simboliza um retorno ao passado e às raízes; no sentido horário, representa o avanço e a continuidade. Independentemente do sentido, a roda é um espaço sagrado que a  energia circula entre os participantes, tanto positiva quanto negativa, refletindo as vivências de cada um.

Nas suas aulas, Bisqui transmite aos alunos uma extensão do conceito da capoeira: uma conexão profunda entre a mente, corpo e o cotidiano. Dentro da academia todos são considerados iguais, não importando suas origens. “Utilizamos um uniforme preto e branco para simbolizar a igualdade e a ideia de que todos estão no mesmo barco.” Filosofia que ressoa com a música “Mun Rá”, do eterno Sabotage, na qual afirmava que a união do branco e o preto cala o ridículo. Uma mensagem poderosa presente nos ares da academia.

Para Bisqui, a capoeira  ajuda a entender o ritmo da vida. Cada movimento, cada som do berimbau, reflete as nuances do cotidiano. “Quando vejo o vento balançando as árvores, percebo a essência da prática nos movimentos da natureza.”

Assim que Aurélio vê Bisqui, um capoeirista e músico que ensina através do silêncio e da energia, como a natureza na sua forma mais profunda de tranquilidade. Um guerreiro que dança conforme as folhas, equilibrando a vida familiar e as lutas da vida em reflexo ao jogo de capoeira.


Retrato de Pablo Ryan

Equipe Olhar de Sabiá

Pablo Ryan

Oi! Meu nome é Pablo Ryan, sou fotógrafo e gosto muito de criar narrativas documentais por meio das imagens. Dentro do Olhar de Sabiá, faço parte do setor de audiovisual.

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