Olhar de Sabiá

Esporte

Pequenas crianças, grandes seres humanos

Emilly Kauana Alves

Imagem de exemplo para a matéria "A poesia jovem da cidade está sendo lida?"

Fotografia: Emilly Kauana Alves

Era uma tarde quente e ensolarada, dessas que fazem o céu de Curitiba brilhar intensamente. Raios de sol refletiam o piso do Ginásio do Tarumã, localizado à Avenida Victor Ferreira do Amaral. A luz entra pelos vãos das portas e janelas, preenchendo todo o espaço como se fosse uma pintura viva. Isso, enquanto uma grande quadra poliesportiva domina o centro de minha visão. A quadra, por sua vez, é quase do tamanho de uma piscina olímpica. Parece um palco, onde pequenos pontinhos coloridos se movimentam, vestindo coletes verdes, laranjas e azuis. 

Foto: Emilly Kauana Alves

Esses pontinhos são crianças — meninos e meninas, que treinam todas as terças e quintas, sempre no mesmo horário. Para eles, o dia começa antes mesmo do galo cantar. É preciso acordar cedo, encarar o trajeto até a escola, estudar… Para os menores, brincar de amarelinha, pega-pega, e ainda ter energia para o futebol no final da tarde. No entanto, ao contrário de muitas crianças que compartilham um cotidiano de correria e obrigações, aquelas que preenchem o ginásio com risos e gritos de excitação têm algo a mais — uma oportunidade rara de vivenciar o esporte em um projeto que vai muito além do futebol. Esse privilégio é fruto do projeto Maestro da Bola, iniciativa que proporciona mais do que simplesmente a chance de jogar futebol.

Mais do que um sonho, uma oportunidade de pertencer

O projeto cria laços, ensina lições de vida e mostra um caminho que muitos desses jovens jamais teriam chance de trilhar sem essa ação. E o responsável pelos treinos? Cleverson Gera, o dedicado treinador de futebol que faz parte do projeto há mais de cinco anos. Com seu jeito brincalhão, sabe a hora certa de sorrir e de puxar a orelha. Ele não hesita em tirar o cartão amarelo do bolso quando um de seus pequenos atletas comete uma falta — não como punição, mas como um lembrete de que o respeito e a disciplina são tão importantes quanto a habilidade com a bola.

Jamil tem 14 anos. É um menino alto, de mais ou menos 1,70 de altura, possui cabelos castanhos, tem um sorriso fácil e é muito extrovertido. Com os olhos brilhando, diz se sentir orgulhoso de conciliar os estudos com a vida de atleta. O treino acaba. O sol já não está mais radiante como antes. O frio de Curitiba começa a aparecer. Jamil, que faz o trajeto a pé do ginásio até sua casa no Bairro Bacacheri, se mostra muito bem-fadado, mesmo cansado após correr pra lá e pra cá durante a tarde inteira.

Foto: Emilly Kauana Alves

As extensas obras nas extremidades da região, não são suficientes para fazer com que o jovem atleta e seus colegas maiores desistam de realizar o que mais gostam de fazer: viver as alegrias e desafios dentro das quatro linhas. Atualmente, Jamil também joga no time de futsal sub-14 da Associação Atlética do Banco do Brasil, como ala esquerda. Durante nossa breve conversa, o jovem garoto revela um sonho a ser conquistado: 

Os treinos são divididos em dois grupos: o primeiro horário, tendo crianças de 7 a 10 anos, e a outra divisão, jovens atletas com idades de 11 a 15 anos aproximadamente. Os pequenos possuem uma energia imensurável! Não há qualquer distinção de gênero. As crianças jogam de iguais para iguais. Você consegue sentir a alegria dessa gurizada, não só ao praticar o esporte, mas quando chegam e veem seus amigos as esperando para brincar antes do jogo. Quando vão correndo falar com o treinador, ou até mesmo durante o aquecimento, quando conseguem enxergar sua família sentada na arquibancada sorrindo, prestigiando os seus pequeninos mesmo antes da bola de fato rolar.  

Ele fala que há crianças mais vulneráveis que as outras. Algumas não levam uma alimentação saudável, não têm condições de terem chuteiras novas, enquanto outras, faltam à escola e não se comprometem com os estudos (algo que é levado muito a sério pelo projeto social). 

Foto: Emilly Kauana Alves

Os pequenos gigantes aprendem a cair e a se levantar, a acreditar em si mesmos e a encontrar beleza até nos dias mais cinzentos. Eles correm, saltam e marcam gols que, para quem vê de fora, podem parecer apenas brincadeira, mas, para eles, são passos firmes rumo ao futuro. E assim, sob o céu de Curitiba, em meio a bolas de futebol e sonhos que flutuam no ar, essas crianças escrevem suas próprias histórias, cheias de cores, lutas e vitórias. Porque, ali, naquele ginásio iluminado, elas não apenas jogam — elas vivem, crescem e se transformam. 

Retrato de Emilly Kauana Alves

Equipe Olhar de Sabiá

Emilly Kauana Alves

Emilly, 20 anos. Redatora, fotógrafa e pesquisadora apaixonada pelo universo da cultura, do esporte e do cotidiano. Acredita que a sensibilidade e a curiosidade são essenciais para transformar a rotina em notícias e registros marcantes, com uma apuração jornalística ética e precisa.

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