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Ao ritmo dos cavalos

Emilly Kauana Alves

Treino numa pista de hípica em piso de areia cercada por árvores. Em primeiro plano, um homem caminha de costas com casaco azul onde se lê "EQUIPE PARANÁ". Ao fundo, três praticantes com capacetes montam cavalos castanhos e um branco.

Fotografia: Emilly Kauana Alves

É uma tarde tranquila de terça-feira, quando o barulho suave das folhas balançando ao vento se mistura com o compasso ritmado dos cascos sobre o  chão. Para muitos, o ambiente seria uma pausa diária, um convite à contemplação. Para Willian Fernandes Neves, de 30 anos, esse é apenas mais um dia de sua rotina, na qual o tempo parece seguir o ritmo dos cavalos, e não o dos relógios. 

Acordar às 5h30 da manhã, para às 7 horas estar no lugar em que passa a maior parte do tempo. O local? O Haras Vila Olímpica, localizado na Colônia Murici, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Há  três anos e meio, Willian trabalha lá diariamente, e esse lugar se tornou sua segunda casa – ou, talvez, sua verdadeira casa.

E, de fato, imaginar-se longe dali seria impossível para ele.

Nascido no interior, na região da cidade de Londrina, em 24 de janeiro de 1994, Willian é apaixonado desde criança por animais, e foi aos 9 anos que teve seu primeiro contato com os cavalos, graças aos seus dois irmãos mais velhos, que já trabalhavam no ramo. “As vezes, minha mãe tinha que trabalhar, então eu ia junto com eles para o trabalho, foi aí que tudo começou”. Aos 10, os donos do haras em que seus irmãos trabalhavam, deixaram o pequeno fazer aulas, e treinar quase todos os dias. 

Foto: Emilly Kauana Alves

Entretanto, o medo também fez parte desse início.

O que mais impressiona ao observar Willian é sua conexão quase mágica com os cavalos. Quem o assiste treinando, vê além de um cavaleiro e seu cavalo. É um diálogo silencioso, um entendimento mútuo.

Apesar de seu talento natural, o caminho até aqui nem sempre foi fácil.

Foto: Emilly Kauana Alves

O medo é comum

Os primeiros seis meses foram os mais difíceis, marcados pela tensão e pela ansiedade: “Cheguei a pensar em desistir. Não me sentia confiante o suficiente para continuar”.

Mas, com perseverança, ele mostrou a todos – e a si mesmo – que a força de um atleta está na sua capacidade de persistir. O que eram dois treinos semanais, logo se tornaram diários.

Aos 12 anos, Willian já competia em provas nacionais. O mais marcante foi o Campeonato Paranaense de 2009, em Curitiba, onde conquistou sua primeira vitória na categoria, aos 15 anos. Foi o início de uma trajetória brilhante, acumulando mais de 38 títulos individuais e por equipes. Entre eles, destaca-se o Campeonato Brasiliense de Amazonas em 2023, quando conquistou o 1º lugar na categoria por equipes. 

Embora admire todas as modalidades do hipismo – que incluem salto, corrida, atrelagem, adestramento e polo –, é o salto que mais o fascina. Para Willian, cada competição é uma nova chance de melhorar. O salto é desafio, exige soluções e confiança no cavalo. A conexão entre cavaleiro e animal é fundamental. 

Apesar das conquistas, ele lamenta que o hipismo esteja longe de ser um esporte de grande visibilidade.

Nesse meio, é comum ver casos de agressão contra cavalos de maneira frequente, e para Willian, isso é algo que mexe bastante com ele. O cavalo é manso, o que o torna bruto é a maneira que eles são tratados.

Por isso, o adestramento é importante. É preciso ter paciência e, claro, muito amor. Janaína Leal é proprietária do haras e amiga do cavalheiro. Ela ressalta que a sensibilidade é um dos traços da sua personalidade que mais chama a atenção das pessoas ao seu redor. Ética, transparência e humildade foram alguns dos elogios direcionados ao amigo. “Ele é paciente, dedicado, Todos os dias, ele dá o melhor de si, todos aqui o admiram muito”, diz ela.

O hipismo muda vidas

O que mais emociona na profissão, são as histórias de superação constante que ele presencia. Os pais de uma aluna queriam que a filha começasse a cavalgar, mas a criança tinha um grau de autismo, então o processo teria de ser mais cauteloso. Geralmente, o mais indicado é a equoterapia, que se difere do hipismo por ser um tratamento terapêutico. Ela utiliza o cavalo como meio para promover o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, e necessita de especialistas da área da saúde para acompanhar no tratamento. 

No início, a aluna tinha muita dificuldade de equilíbrio. “Eu auxiliava bastante, apoiava para ela não se desequilibrar. O cuidado era redobrado”. Aos poucos, ela foi desenvolvendo a fala e o equilíbrio, e isso o deixou completamente realizado. Uma aluna tão nova, e que mesmo com as dificuldades, tornou-se um exemplo de superação. São casos como esse que mostram toda a magia e evolução por trás desse esporte.

Foto: Emilly Kauana Alves

Longe dos cavalos, Willian é como qualquer outro apaixonado por futebol. Adora ir a barzinhos, conversar com os amigos e, claro, torcer pelo seu time do coração: o Sport Clube Corinthians Paulista. Ir aos estádios já fez parte de sua rotina, mas com a vida corrida, ele agora acompanha os jogos principalmente pela televisão. O barulho das arquibancadas ainda o atrai, mas a rotina de treinos e competições exige um ritmo mais reservado.

Hoje, Willian Fernandes Neves continua competindo em torneios regionais e nacionais, mas o brilho em seus olhos não é apenas pelas medalhas. Para ele, o maior troféu é o aprendizado diário que cada cavalo lhe oferece.


Retrato de Emilly Kauana Alves

Equipe Olhar de Sabiá

Emilly Kauana Alves

Emilly, 20 anos. Redatora, fotógrafa e pesquisadora apaixonada pelo universo da cultura, do esporte e do cotidiano. Acredita que a sensibilidade e a curiosidade são essenciais para transformar a rotina em notícias e registros marcantes, com uma apuração jornalística ética e precisa.

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