Olhar de Sabiá

Esporte

No tal do barracão verde

Larissa Croisfett

Grande galpão cor verde escuro em um campo de grama e céu azul ensolarado

Fotografia: Larissa Croisfett

Parece coisa de filme. 

O verde é tão verde e o azul é tão azul, que parece que mãos divinas aumentaram a vibração das cores nesse dia tão ensolarado. Os cachorros se espreguiçam na grama e os pássaros cantam felizes de estarem entretidos. De vez em quando, ouve-se um barulho de caminhão, logo é abafado pelas risadas de dentro do barracão verde escuro. Na água, é possível enxergar, se os olhos forem forçados, um pontinho rosa choque se movendo. 

O pontinho é Giovana, uma menina de pele bronzeada e olhos cor de mel que rema repetidamente para frente e para trás, movendo o barco branco no qual está sentada. “Ela parece um peixe”, a mãe da menina diz ao contar como a garota sempre amou a água. Observando a mulher, Elizabeth, é fácil saber de onde vieram os olhos de mel de Giovana. “Ela está aqui fazem dois anos, no começo ela quase desistiu, mas a convenci a fazer mais um mês de aula. Continuou e agora não falta mais”. 

Sai do barracão uma menina alta de cabelos curtos, e se senta no píer com uma amiga. Heloisa, a menina alta, já fez parte da seleção feminina brasileira de canoagem, antes de o time ser fechado por falta de recursos. Hoje, ela trabalha no setor comercial, mesmo que seu coração continue nos barquinhos e nas pás. Ela tenta seguir a promessa que fez ao seu falecido tio trabalhando como assistente técnica da Escolinha de Remo do Clube de Regatas de Curitiba, no tal do barracão verde.  

O clube se encontra no Parque Náutico do Iguaçu: um lugar de 14 km de extensão, às vezes não grande o suficiente para conter o amor de todas essas pessoas pelo remo e pela canoagem. Alejandro, por exemplo, é professor da escolinha e pretende ficar lá até o expulsarem. Veio de Cuba, depois de servir o exército e ter que largar um legado de vitórias no esporte, um mestrado em Educação Física e muitos amigos queridos. Hoje em dia, cada amigo está em um canto do mundo, mas conseguem manter contato a cada dois meses por meio de uma chamada de vídeo.

Alejandro chegou ao Brasil sem falar nada de português, apenas sabendo remar. E foi isso que fez. Foi chamado pelo Regatas e, por intermédio do clube,  conseguiu aprender a língua e o jeito do povo paranaense. O homem conta tudo isso com um sorriso, enquadrado por uma barba cor de areia meio grisalha. A conversa é rápida, logo tem que entrar na água para remar os 4 quilômetros do treino de hoje. Ele não demora porque Giovana e os outros dois alunos já começaram o trajeto. 


A raia em que os skiffs (nome adequado para os “barquinhos”) passam é delimitada por bolinhas-boias coloridas que criam uma largura de quase 14 metros e, além da blusa rosa de Giovana, são  o que se destaca visualmente na lagoa. De onde o píer fica, só é possível avistar os atletas até certa distância. Mesmo assim, Elizabeth espera a filha retornar com a câmera do celular pronta. Ela mostra os melhores lugares para fotografar os remadores enquanto descreve as crianças que não apareceram hoje. 

Um dos alunos está faltando porque sofreu um atropelamento e quebrou a clavícula. A outra, Elizabeth acha que não vem mais: “Os pais são atletas, e a mãe queria muito que ela fizesse alguma coisa; mas a menina não gosta muito”. Ela também diz que é comum alguns meninos mais carentes aparecerem por ali, eles trazem até os cachorros que brincam com eles na rua. Uma vez, um dos garotos caiu no lago durante a aula, e o cachorrinho pulou na água para salvar o menino. Claro que o animal não sabia que, para fazer as aulas de remo, é obrigatório saber nadar.

Mesmo com realidades diferentes, todos os que pisam e decidem ficar no barracão têm algo em comum: nas palavras de Alejandro, dentro do clube não existe rico e pobre, todo mundo é remador. Por exemplo, Andrei, homem de 20 anos cujos olhos verdes chamam a atenção, representa um clube de remo de Porto Alegre, porém, entrou em acordo para continuar treinando em Curitiba: “Faço faculdade aqui, moro com a minha mãe e consigo bolsa do estado”. Andrei faz valer o contrato treinando três vezes todos os dias da semana.

Essa paixão genuína pelo esporte tem explicação. O remo é sinônimo de liberdade. Quando se entra no skiff,e se segura as pás, não há julgamentos nem problemas externos, apenas o remador e o ritmo da remada. Afinal, um lugar com verdes tão verdes e azuis tão azuis parece perfeito para se desprender da terra e de si mesmo. 


Retrato de Larissa Croisfett

Equipe Olhar de Sabiá

Larissa Croisfett

Oie! Eu sou a Lari! Tenho 20 anos e, para mim, o jornalismo é uma maneira de conhecer outras realidades e transformar o mundo. No Olhar de Sabiá, fico a frente das redes sociais, e também auxilio em eventos e design! Espero que vocês gostem do projeto!

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