Olhar de Sabiá

Crônicas

Parque Linear do Rio Palmital

Davi Guiarzi

As madeiras que compõem os brinquedos das crianças foram destroçadas por vândalos. O concreto que um dia já foi branco, leva consigo os sinais das fogueiras criadas por homens e mulheres necessitados, seja de calor ou de alma. O fogo triste que queima essas madeiras, é também o que queima as cheirosas flores. Conseguimos sentir de longe, pois bitucas de cigarro são encontradas por todo o espaço, seja de nicotina ou de cannabis. Não é novidade que as ruas são repletas de perigos na região metropolitana de Curitiba. Ao andarmos pelo Parque Linear do Rio Palmital, em Colombo, sinais de marginalização são presença garantida. Entretanto, nem tudo é marginal. Há uma prática, na qual aspectos estereotipados e marginalizados se encontram com o esporte: o skate.

Julgado por sua cultura periférica, o skate é uma espingarda social. As rodas que batem no piso de concreto produzem um som agudo que ecoa por toda a pista. Pessoas que esperam por sua vez conversam, riem e fumam. Elas observam uma criança acertar uma manobra, tentada por pelo menos duas vezes. Ao pousar no chão, o sorriso do jovem é sincronizado com o pulo dos espectadores, que correm para abraçar o garoto. Entre os gritos de euforia e a comemoração efêmera, a sociabilidade do skate é comprovada na sua empatia espontânea. 

Diante dois fatores recentes - a discriminação da posse de quarenta gramas de maconha e entrada do skate nos Jogos Olímpicos, cenas do cotidiano do Parque Linear do Rio Palmital podem gerar percepções variadas. Sentadas em um banco de madeira, duas mulheres esboçam caretas ao verem a fumaça sair da boca de alguns jovens. Elas certamente temem por seus filhos, que provavelmente nunca terão a sensação que o garoto da manobra teve. Entretanto, existe algum tipo de regra social nesses locais. Crianças são encorajadas a se desenvolverem, a lutarem e a se divertirem. Alguns pais são excepcionais para esses quesitos, como é o caso do pai daquele garoto. 

Tidos como marginais por falarem “errado”, as gírias compõem o vocabulário dos jovens e dos adolescentes que frequentam aquela pista de concreto. A palavra “gay” vira pronome, substitui “você”, e é usado pela maioria dos pequenos. Entre os mais velhos, se destacam as calças largas, os colares e os bonés. Os skatistas, sejam homens ou mulheres, são um grupo social conhecido por seu estilo, pelo seu gingado e pela forma como falam. Seus skates os diferenciam de todos os outros, são coloridos, às vezes monocromáticos, mas sempre geram atenção quando tocam com seus pés. Em meio a um mundo incorreto, existe uma bolha que tenta sobreviver nesse imensurável mar de perigos constantes. 

Da forma que as coisas andam naquela região, não é difícil encontrar a criminalidade em seu caminho. Em tempos inconstantes, uma maneira de fugir do inevitável é buscar as características sociais que o esporte tem a oferecer. As araucárias em volta da pista de skate são um refúgio de desenvolvimento para todas as pessoas que se permitem entender. Bastante cansado, após vibrar, cair e corajosamente se levantar, o garoto se despede de seus novos amigos debaixo da enorme árvore. Diante disso, o sol ganha timidez e se esconde, ao fim de mais um dia no Parque Linear do Rio Palmital.


Retrato de Davi Guiarzi

Equipe Olhar de Sabiá

Davi Guiarzi

Tenho 23 anos, escrevo e fotografo. Pra mim, uma fotografia é a melhor forma de viajar no tempo e aprender com a história.

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