Olhar de Sabiá

ECONOMIA

Cesta básica compromete mais da metade do salário mínimo, aponta pesquisa do DIEESE

Moradores da capital paranaense precisam trabalhar mais de 108 horas no mês apenas para alimentar a família

Arthur Froes

A imagem mostra a visão de dentro de um carrinho de compras de supermercado, que está cheio de mantimentos. O carrinho é feito de uma grade de metal pintada de azul vivo.

Fotografia: Pablo Ryan

Garantir o alimento de cada dia na mesa dos curitibanos tem exigido um esforço financeiro e físico cada vez maior. O custo da cesta básica de alimentos na capital do Paraná se consolidou por volta dos R$ 800, atingindo R$ 798,87 na medição do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) para agosto de 2026, e R$ 807,93 no levantamento realizado em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para julho de 2026.

Com esse valor, Curitiba ocupa o posto de 7ª cesta básica mais cara do país entre as 27 capitais monitoradas pelo DIEESE, em um ranking liderado por São Paulo, onde a cesta atingiu R$900,59.

Para o trabalhador que recebe o salário mínimo de R$1.621,00, a compra dos alimentos essenciais impõe um pesado sacrifício. Considerando o desconto de 7,5% relativo à Previdência Social, a aquisição da cesta básica consome 53,28% do salário mínimo líquido.

Em termos de jornada laboral, um curitibano remunerado pelo piso nacional precisa dedicar 108 horas e 25 minutos do seu mês de trabalho exclusivamente para pagar a cesta básica, segundo o DIEESE.

Embora a cesta tenha registrado leve recuo pontual no comparativo mensal (-1,12% em agosto pelo DIEESE e -4,13% em julho pela Conab), o acumulado do ano e de 12 meses mostra altas acentuadas nos alimentos mais tradicionais do prato brasileiro:

  • Batata e tomate: no acumulado do ano até julho de 2026, a batata disparou 75,60% e o tomate subiu 48,10%, segundo dados da Conab. No acumulado de 2026, pelo DIEESE, o tomate lidera as altas com +40,87%.

  • Feijão-preto: elemento central da mesa paranaense, o feijão-preto acumulou alta de 32,46% no ano pela Conab e de 28,34% em 12 meses na pesquisa do DIEESE.

  • Leite e carne: o leite integral acumulou elevação de 21,93% no ano, enquanto a carne bovina de primeira subiu 10,16% em 12 meses.

Em contrapartida, itens como o café em pó (-19,66% em 12 meses), o açúcar refinado (-13,39%) e o arroz agulhinha (-13,26%) registraram quedas no período, ajudando a conter uma alta ainda maior do índice geral.

A inflação dos alimentos não afeta a população de forma igual. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) revelam que, no município de Curitiba, a alimentação no domicílio compromete 19,6% da renda das famílias que ganham até 3 salários mínimos. Em contraste, nas famílias com rendimento superior a 10 salários mínimos, o gasto com comida representa apenas 6,4% do orçamento.

Além disso, entre janeiro de 2018 e agosto de 2026, a inflação acumulada do item "alimentação no domicílio" na Região Metropolitana de Curitiba atingiu 85,7%, superando amplamente o IPCA geral do período, que foi de 52,7%.

Diante desse encarecimento estrutural, o DIEESE estima que o salário mínimo necessário para suprir as despesas básicas de uma família de quatro pessoas (com alimentação, moradia, saúde, educação, transporte e vestuário) deveria ser de R$ 7.565,86 em agosto de 2026, valor equivalente a 4,67 vezes o piso nacional vigente.

O padrão oficial de 13 produtos (carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga) foi fixado pelo Decreto-Lei nº 399/1938, assinado no governo Getúlio Vargas, com base nos estudos do médico pernambucano Josué de Castro.

Segundo a professora Flávia Mori Sarti, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista para o Marco Zero, a composição criada há quase nove décadas está profundamente defasada. Desenvolvida em um contexto de combate à desnutrição calórica, visando entregar energia barata ao trabalhador, a cesta fixa ignora a transição nutricional do país, em que o problema central da baixa renda passou a envolver sobrepeso, obesidade e carência de micronutrientes. Além disso, a fórmula rígida não considera a variação sazonal de frutas e vegetais nem as regionalidades alimentares.

Esse descompasso ocorre em um país onde mais de 116,8 milhões de pessoas chegaram a enfrentar algum grau de insegurança alimentar, reforçando que o acesso a uma nutrição adequada e diversificada exige políticas públicas e reformas econômicas que vão muito além da distribuição de cestas padronizadas.

Retrato de Arthur Froes

Equipe Olhar de Sabiá

Arthur Froes

Sou editor de vídeo. No Olhar de Sabiá, estou junto à equipe do Audiovisual e, às vezes, escrevo.

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