Garantir o alimento de cada dia na mesa dos curitibanos tem exigido um esforço financeiro e físico cada vez maior. O custo da cesta básica de alimentos na capital do Paraná se consolidou por volta dos R$ 800, atingindo R$ 798,87 na medição do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) para agosto de 2026, e R$ 807,93 no levantamento realizado em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para julho de 2026.
Com esse valor, Curitiba ocupa o posto de 7ª cesta básica mais cara do país entre as 27 capitais monitoradas pelo DIEESE, em um ranking liderado por São Paulo, onde a cesta atingiu R$900,59.
Para o trabalhador que recebe o salário mínimo de R$1.621,00, a compra dos alimentos essenciais impõe um pesado sacrifício. Considerando o desconto de 7,5% relativo à Previdência Social, a aquisição da cesta básica consome 53,28% do salário mínimo líquido.
Em termos de jornada laboral, um curitibano remunerado pelo piso nacional precisa dedicar 108 horas e 25 minutos do seu mês de trabalho exclusivamente para pagar a cesta básica, segundo o DIEESE.
Embora a cesta tenha registrado leve recuo pontual no comparativo mensal (-1,12% em agosto pelo DIEESE e -4,13% em julho pela Conab), o acumulado do ano e de 12 meses mostra altas acentuadas nos alimentos mais tradicionais do prato brasileiro:
Batata e tomate: no acumulado do ano até julho de 2026, a batata disparou 75,60% e o tomate subiu 48,10%, segundo dados da Conab. No acumulado de 2026, pelo DIEESE, o tomate lidera as altas com +40,87%.
Feijão-preto: elemento central da mesa paranaense, o feijão-preto acumulou alta de 32,46% no ano pela Conab e de 28,34% em 12 meses na pesquisa do DIEESE.
Leite e carne: o leite integral acumulou elevação de 21,93% no ano, enquanto a carne bovina de primeira subiu 10,16% em 12 meses.
Em contrapartida, itens como o café em pó (-19,66% em 12 meses), o açúcar refinado (-13,39%) e o arroz agulhinha (-13,26%) registraram quedas no período, ajudando a conter uma alta ainda maior do índice geral.
A inflação dos alimentos não afeta a população de forma igual. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) revelam que, no município de Curitiba, a alimentação no domicílio compromete 19,6% da renda das famílias que ganham até 3 salários mínimos. Em contraste, nas famílias com rendimento superior a 10 salários mínimos, o gasto com comida representa apenas 6,4% do orçamento.
Além disso, entre janeiro de 2018 e agosto de 2026, a inflação acumulada do item "alimentação no domicílio" na Região Metropolitana de Curitiba atingiu 85,7%, superando amplamente o IPCA geral do período, que foi de 52,7%.
Diante desse encarecimento estrutural, o DIEESE estima que o salário mínimo necessário para suprir as despesas básicas de uma família de quatro pessoas (com alimentação, moradia, saúde, educação, transporte e vestuário) deveria ser de R$ 7.565,86 em agosto de 2026, valor equivalente a 4,67 vezes o piso nacional vigente.
O padrão oficial de 13 produtos (carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga) foi fixado pelo Decreto-Lei nº 399/1938, assinado no governo Getúlio Vargas, com base nos estudos do médico pernambucano Josué de Castro.
Segundo a professora Flávia Mori Sarti, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista para o Marco Zero, a composição criada há quase nove décadas está profundamente defasada. Desenvolvida em um contexto de combate à desnutrição calórica, visando entregar energia barata ao trabalhador, a cesta fixa ignora a transição nutricional do país, em que o problema central da baixa renda passou a envolver sobrepeso, obesidade e carência de micronutrientes. Além disso, a fórmula rígida não considera a variação sazonal de frutas e vegetais nem as regionalidades alimentares.
Esse descompasso ocorre em um país onde mais de 116,8 milhões de pessoas chegaram a enfrentar algum grau de insegurança alimentar, reforçando que o acesso a uma nutrição adequada e diversificada exige políticas públicas e reformas econômicas que vão muito além da distribuição de cestas padronizadas.






