Olhar de Sabiá

POEMA

Hotel San Juan

Giovana Tirapelli

Fotografia: Giovana Tirapelli

Na noite infantil, 
um março
instável.
Cheio de mudanças
e cores.

Extasiadas da viagem, 
e perdidas,
entre risos de empolgação.
Pela primeira vez, 
as meninas compreendiam...

A questão da imensidão. 
Que com carinho clandestino
guarda o destino 
incerto;
das memórias fluidas. 

Ao chegarem ao quarto 
pequeno,
com um banheiro estranho;
cujo box era
quase transparente. 

Gargalhadas eclodiram 
das barrigas famintas;
ressoando pelo corredor. 
Era um ode, uma fome
de liberdade.

O labirinto
infinito do novo.
As pequenas descobertas, 
da respiração
singela e simples. 

“Acho que existimos”,
os sorrisos 
afirmavam.
“Nossa vida,
acaba de começar”.

Os paços 
tardios
nos paralelepípedos.
Tortos,
desajeitados. 

Como nós,
que ríamos abobadamente
de tudo que passava
e nos via.
Ahh!

Essa memória
distante 
de duas crianças 
errantes,
que no pé dos trilhos

Trocavam palavras
de angústia,
e indignação.
Da pequinês
de nossa existência. 

Que mera
existência.
Da podridão 
e falsidade 
da humanidade.

“Tudo é bem maior
que isso;
tenho certeza 
que há algo a mais 
para nós”. 

Parece clichê
a nostalgia 
das conversas juvenis.
De nossas 
memórias infantis. 

As mágoas 
e lembranças 
que guardamos
com carinho 
no afeto. 

Que sempre 
transmitimos
no abraço,
de quando 
nos encontramos. 

Por isso,
sempre que o letreiro
do Hotel San Juan
aparece no campo de visão, 
A memória resgata.

Absorbe a mente
em risos antigos,
que ecoaram 
na calada da noite, 
enquanto saltitávamos pela rua.

Imersas 
na imensidão. 
Em nossa descoberta 
do mundo. 
Início dos sonhos. 

Nossas almas 
cantavam alegres,
enquanto os sorrisos descansavam. 
A noite chuvosa 
acolhia.

O gelado 
da estação quente, 
em partículas de sabedoria. 
Condensadas nas poças acumuladas 
nas calçadas da sete de setembro.

Naquela noite,
Querida amiga.
Senti,
que era
para sempre.

A felicidade
do novo. 
A sensação
de vida
que, com certeza

Exalávamos, 
ao correr 
pelas ruas desconhecidas, 
pela cidade nova.
Vida nova.

As luzes 
ofuscantes
dos semáforos;
tão, tão,
vermelhas.

Irradiando 
o melhor de nós. 
O melhor de 
nossa juventude:
a felicidade plena. 

Agora, 
todas as vezes 
que os passos 
ecoam 
naquela esquina.

Da avenida
cumprida.
Só se consegue
ouvir, 
as risadas jovens.

Nosso tão clamado,
saudoso,
e  feliz
riso
de liberdade.

Seremos 
sempre parte
da melodia ventosa
das noites
chuvosas.

Sempre jovens
na lembrança.
E sempre felizes
nos ecos de eternidade 
da rua sete de setembro.


Retrato de Giovana Tirapelli

Equipe Olhar de Sabiá

Giovana Tirapelli

Oioii! Eu sou a Gih! Adoro filmes, livros, fotografias e arte, e acho que a multiplicidade de oportunidades da comunicação, possibilita a realização de uma rica abordagem de diferentes aspectos do cotidiano.

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