Domingo, 13 de setembro de 2026. O clima no Largo da Ordem vai contra a típica atmosfera curitibana: uma manhã ensolarada e abafada, devido às mudanças climáticas ocasionadas pelo El Ninõ. Apesar disso, turistas e moradores de todos os cantos circulam pela maior feira a céu aberto do Paraná.
À vista estão pinturas, esculturas, roupas e acessórios — uma infinidade de formas e cores. Na longa extensão de barracas sobre o calçamento de pedras, há uma que se destaca de longe pelo colorido vibrante das peças em cerâmica e vidro. Ali, cada fragmento cuidadosamente encaixado revela não apenas técnica e precisão, mas a realização que o artesanato proporciona.
Adriana Metzger tem 54 anos e um jeito espontâneo e acolhedor que conquista logo no primeiro olhar. Mesmo com o vaivém apressado dos corredores, cada pessoa que para diante do seu espaço recebe total atenção.
Comenta uma visitante, com o ar curioso de quem descobre a feira pela primeira vez.
Entre as mandalas geométricas, placas e tampos, saltam aos olhos mosaicos delicados com silhuetas e olhares felinos. Apaixonada por gatos, Adriana faz questão de estampar esse carinho em cacos coloridos, transformando o amor pelos bichanos em arte decorativa que atrai tanto tutores dedicados quanto admiradores casuais.
O trabalho manual sempre correu em suas veias. Desde a infância, ela se encantava por miudezas: produzia bijuterias, pintava e decorava caixas. Contudo, a necessidade prática do início da vida adulta a conduziu a outro destino. Formou-se em Administração e passou anos cumprindo expediente em escritórios de uma construtora, imersa em papéis, contratos e burocracias corporativas — uma rotina estável, mas distante de sua alma artística.
A grande virada aconteceu quando a vida exigiu renúncias difíceis. Diante da doença de sua mãe, Adriana não pensou duas vezes: deixou para trás o emprego formal e dedicou-se integralmente a acompanhá-la e cuidar dela até o fim. Foi nesse intervalo doloroso de recolhimento que a curiosidade a aproximou de um curso de mosaico — a técnica que ainda faltava para ampliar seu conhecimento.
A paixão foi imediata e transformadora. O que começou como terapia e aprendizado logo se tornou vocação e ganha-pão.
Já se passaram 14 anos desde que ela montou sua barraca no Largo da Ordem pela primeira vez. Uma década e meia de domingos ininterruptos, resistindo ao vento frio, à chuva fina e ao calor escaldante do meio-dia. Nesse tempo, a feira deixou de ser apenas ponto comercial e virou extensão da sua própria casa.
Por ali, Adriana viu clientes ocasionais virarem amigos fiéis. Há quem volte todo ano só para lhe dar um abraço, quem traga presentes de Natal ou turistas distantes — como o cliente da Bahia que reapareceu anos depois contando que o prato giratório comprado em 2016 ainda girava intacto e cheio de memórias sobre a mesa da família.
Essa trajetória na feira também lhe deu o que nenhum escritório ofereceria: autonomia para cumprir sua missão mais importante: o de filha. Com o ateliê montado em casa, Adriana divide o tempo entre cortar cerâmicas e cuidar do pai, diagnosticado com Alzheimer.
Ter a oportunidade de trabalhar sem tirar os olhos dele, assegurando afeto, conforto e carinho, é o que considera seu maior privilégio.
No Largo da Ordem, essa sensibilidade orienta cada atendimento. Sua produção se molda às vontades de quem chega: são placas com dizeres de marinheiro, peças temáticas sob encomenda e, principalmente, os tampos de mesa giratórios — o carro-chefe que já viajou o país inteiro.
Manter-se firme como artesã durante 14 anos tem seu custo. Significa abrir mão dos tradicionais almoços de domingo em família, trocar o descanso das noites de sábado pelo despertador de madrugada e virar noites para honrar prazos. Ainda assim, Adriana não hesita:
Para quem guarda um sonho engavetado, ela deixa a lição de quem passou mais de uma década reconstruindo o próprio destino caco por caco:
No fim das contas, a emoção sincera no rosto de quem leva um pedaço da sua arte para casa faz cada domingo valer a pena.

Equipe Olhar de Sabiá
Emilly, 20 anos. Redatora, fotógrafa e pesquisadora apaixonada pelo universo da cultura, do esporte e do cotidiano. Acredita que a sensibilidade e a curiosidade são essenciais para transformar a rotina em notícias e registros marcantes, com uma apuração jornalística ética e precisa.





